Andava eu às voltas a pensar nas razões da minha menos conseguida prestação na maratona do Porto, quando o Joaquim Adelino colocou um comentário no meu blog que dizia:

Pôsto isto acho que está quase tudo explicado.
E ponto final!
Não fosse eu um tipo um pouco teimoso e sempre procurando saber o porquê das coisas e ter-me-ia dado por satisfeito. O certo, porém, é que eu gosto de ir ao fundo das questões e embora ainda hoje não tenha resposta para muitas das minhas dúvidas (por exemplo: ainda não descobri o que apareceu primeiro, se a galinha ou o ovo), lá continuei a cismar.
Então é assim:
Apesar de a maratona ser uma prova de resultado sempre imprevisível eu creio que falhei na abordagem à mesma. A verdade é que eu fui para a prova com demasiada descontração. Eu, que sou um homem de contas, tinha tudo planeado: quanto tempo pensava fazer; quais seriam os meus tempos intermédios (10 kms./20/kms/30 kms); qual o ritmo médio para atingir tais tempos, etc..
Porém, na hora da verdade, fui na onda. Ainda hoje me custa a aceitar o à vontade com que eu me deixei entusiasmar pela envolvência. É certo que tudo bateu certo para que me deixasse levar pelo entusiasmo (foi o encontrar velhos amigos; foi o conhecer novos amigos; foi o deixar-me confundir pelo ritmo imposto pelos corredores dos 14 kms. que iam passando; foram as bandas de música a tocar e foram outras coisas mais). E, carago, no fundo já era a minha 5ª. Maratona, além de maratonista eu também já era maratoniano.
Acresce ainda o facto de em termos de treinos longos, e aqui falo de treinos de 30 kms., eu ter ficado aquém do necessário, o que, no meu caso pessoal, pode ter feito toda a diferença.
Quanto à corrida em si, foi mais ou menos assim:
No sábado à noite preparei todos os detalhes, de maneira a que logo no domingo de manhã eu estivesse pronto sem grandes problemas. Assim, domingo de manhã levantei-me bem cedo e logo depois arranquei para o Porto. Eram cêrca de 7:25 já eu estava no Parque da Cidade, tendo entrado no primeiro autocarro que partiu para o local de partida, onde terei chegado um pouco antes das 8:00. Mal lá cheguei encontrei um grupo de amigos aqui da blogosfera que estavam a tirar fotografias para a posteridade (o António Almeida, Fernando Andrade, Ana Pereira, Vitor Veloso, Joaquim Adelino, Luís Mota e alguns familiares). Cheguei mesmo a tempo de entrar nas fotos, após o que tive o prazer (grande) de cumprimentar alguns amigos e de trocar algumas palavras. Neste entretanto também tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o João Meixedo, o Ricardo, o Miguel Paiva e o José Brito e a Otília Leal, o que me deu uma grande satisfação, se bem que o momento não fosse para grandes conversas, pois o tempo era pouco e a ansiedade era grande e começava a crescer.
Mal tive tempo de aquecer e de fazer um pouco de ginástica e quando dei por mim já estava no local de partida à espera que soasse o sinal.
Dado o tiro de partida lá arranquei e fui percorrendo os kms.. Atendendo ao facto de os primeiros quilómetros serem a descer, o ritmo foi mais rápido. A juntar a isto há também o facto de nós nos vermos envolvidos pelos atletas das duas outras competições que, óbviamente, têm ritmos mais rápidos. Aqui fui ultrapassado por alguns colegas aqui da minha terra que iam para os 14 kms. e que deram algum incentivo. Passei aos 10 kms. com 53:28 (bem bom...infelizmente). Entretanto, lá por volta dos 12 kms. ouço uma voz vinda de trás de mim, que diz – “Ui Alberto”, era o Renato Cruz, que conhecia da Maratona de Lisboa do ano passado. Fomos juntos até por volta dos 22 kms. Este homem é um espectáculo. Ele puxa pela assistência, ele bate palmas às bandas.. É, de facto, uma companhia muito agradável. Foi bonito o momento, muito esperado por ele, de se encontrar com a família debaixo da ponte da Arrábida e ali exibir uns momentos de ternura familiar. Num determinado momento incentivei o Renato a avançar, pois sentia que ele poderia fazer melhor do que eu, e assim continuei sózinho. Entretanto, havia passado os 20 kms. com o tempo de 1:49:58, o que continuava a ser “demasiado” bom para as minhas expectativas. No retorno cruzei-me com o Joaquim Adelino que ia umas poucas centenas de metros à minha frente e retive desta passagem a concentração e o espírito determinado com que ele seguia. Lá fui seguindo a minha corrida, tendo passado os 25 kms. com 2:18:46, os 30 kms. com 2:47:56. e os 35 kms. com 3:20:43. Esta marca de 3:20:43 dava para, mantendo o mesmo ritmo, terminar a prova com 4 horas, o que, sinceramente, nunca tinha estado nos meus objectivos, pois havia apontado para um tempo na ordem das 4:10/4:15.
Posso dizer que até aos 35 kms. a minha corrida foi um completo passeio. Muito prazer e pouca dor, sempre a incentivar e a cumprimentar os atletas que se cruzavam comigo. Seguia como se fosse para a festa.
Até que, de repente, lá por volta dos 36 kms. e num espaço de umas poucas centenas de metros a minha energia foi-se. É quase como um “desmaio” energético. De um momento para o outro a nossa força desaparece e ficamos à mercê de eu sei lá o quê. A partir daí foi uma corrida/caminhada solitária até à meta. O curioso é que apesar da falta de forças a cabeça só tem uma coisa em mente que é avançar e terminar a prova. Alternei a corrida com alguns momentos de caminhada, mas mesmo quando caminhava era com muita determinação. Nestes últimos kms. perdi muito tempo, demasiado tempo. Demorei os seguintes tempos para percorrer os últimos kms.: km. 36/6:49:04; km. 37/7:10:02; km. 38/7:40:58; km. 39/7:26:94; km. 40/7:33:25; km. 41/8:13:37 e km. 42/7:54:25. Perdi mesmo muito tempo nestes últimos kms. e foi mesmo muito difícil chegar ao fim. Nestes últimos kms. fui passado por muitos atletas, muitos deles também já iam a dar as últimas, mas mesmo assim iriam melhor do que eu. Acho que a parte final da prova é demasiado “perversa”. Aquela recta na marginal é interminável (muito pior do que a recta da Nazaré, quando parece que estamos no sítio e nunca mais lá chegamos) e a ida à rotunda da anémona é algo contra a corrente.
Na subida final da Ava. da Boavista ainda caminhei alguns metros mas lá me consegui aprontar para a chegada “vitoriosa” à meta, que cortei em bom estado, com o relógio a marcar 4:18:17 (tempo de chip: 4:17:45).
Ainda esbocei uma tentativa para ir às massagens, pois estavam alí poucos atletas, mas decidi-me por ir para o carro que estava mesmo alí ao lado da meta. Abro a mala do carro, sento-me, pego numa powerade, bebo uns goles, pego numa barrita energética que como aos poucos, telefono para casa a avisar que tudo está bem e caminho, devagar, algumas centenas de metros, enquanto vou assistindo à chegada de outros atletas.
Alguns minutos depois sinto-me totalmente recuperado e regresso a casa, alegre e bem disposto. Poderia ter feito melhor? Sim, talvez, quem sabe...Valeu a pena? Claro que valeu a pena. Aprendi alguma coisa? Claro, aprendi imenso, foi uma experiência grandiosa. Mesmo a facto de ter passado algumas dificuldades para completar os últimos kms. contribuiu, e muito, para fortalecer o meu espírito de sacrifício e testar as minhas capacidades de sofrimento. Se assim não fosse não estaria eu já a pensar na próxima maratona, que espero seja em Abril de 2010, em Paris.