
Estava eu, disfarçadamente, a olhar para o tecto, pensando que ninguém me iria descobrir, quando, de repente, o meu genro entra pela cozinha dentro e me pergunta:
- O que está a fazer aqui sózinho, a olhar para o tecto?
Surpreso e atrapalhado, ainda tentei disfarçar mas não havia volta a dar. Fui mesmo apanhado e agora ia ter de dar uma explicação convincente.
Passo a explicar:
No passado fim de semana fui a Lisboa. Aproveitei o facto de a minha filha aí estar a viver e realizando-se nesse fim de semana a maratona de Lisboa, juntava o útil ao agradável. Visitava a família, enchendo o meu baú de afectos, ao mesmo tempo que aproveitava para fazer uma corrida.
Cheguei a pensar alinhar na maratona, mas cedo desisti da ideia, pois tendo corrido a maratona do Porto há um mês atrás, entendi que me era mais útil, nesta altura, optar pela meia-maratona.
Assim fiz. Cheguei no sábado e logo na parte de tarde aproveitei para levantar o dorsal, altura em que tive o prazer de encontrar o Joaquim Adelino, com quem tive alguns momentos de agradável conversa.
No domingo de manhã acordei bem cedo. Seriam umas 7 horas. Lá tomei o pequeno-almoço e fiquei à espera que as horas passassem, pois a partida para a minha prova seria só às 10:30. Como todo o mundo lá em casa ainda estava a dormir, lá fiquei eu, sentado na cozinha, ora olhando para o infinito, ora olhando para o tecto, fazendo contas de cabeça.
E fui aí que o meu genro, entrando, me faz a tal pergunta:
- O que está a fazer aqui sózinho, a olhar para o tecto?
Lá tive de lhe explicar que depois de tantos anos de corridas, depois de ter feito mais de 60 meias-maratonas, nem sempre é fácil encontrar motivação para sair de casa numa manhã fria de Outono para correr 21 kms. e lá tive de confessar:
- Estou a pensar se vou correr ou se continuo aqui a olhar para o tecto.
Escusado será dizer que pouco tempo depois já ía a caminho da partida.
Que dizer da prova? Foi mais uma! Não choveram estrêlas, o céu não mudou de côr, o vento não parou para eu passar, o rio não se abriu e os anjos não cantaram hossanas. O dia ficou “limitado” ao reencontro com alguns amigos, alguns com quem tive o prazer de falar pessoalmente, e outros com quem me cruzei durante a prova e com os quais existe uma empatia que nos leva a procurá-los no meio da multidão e a gritar “fôrça Luís”, “fôrça António”, “fôrça Joaquim”, “fôrça Fernando”, “fôrça José Magro”, “fôrça Vitor”, e fôrça para tanta mais gente.
Coisa pouca!? Talvez, para alguns. Não para mim. Acrescente-se ainda o enorme prazer que sinto em correr e o facto de encarar a prova sem compromissos especiais que não fôssem o prazer de correr e o chegar ao fim em boas condições e a combinação ficou completa.
Como se tal não chegasse tive ainda direito a fotógrafo de serviço (muito obrigado Isabel Almeida), que gentilmente captou a minha entrada “triunfal” na pista de tartan do Estádio 1º. de Maio.
É verdade, depois de tantos anos a correr nunca tinha terminado uma prova dentro de um estádio.
Quanto à prova em si, especialmente no que diz respeito à alteração do percurso, pessoalmente achei muito mais interessante. Se tivesse corrido os 42 kms. talvez a minha opinião fôsse outra. No meu caso, que gosto de subir, até que “gramei” aqueles quilómetros finais, tendo feito a segunda metade da prova em menos tempo do que a primeira.

José Alberto